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A vida é feita de muitas fases, de muitas circunstâncias e nem sempre temos a disponibilidade que desejamos para manter a horta e o jardim perfeitamente "arranjados" e "bonitinhos" segundo os canônes da nossa sociedade atual, onde a Natureza é encarada apenas como algo a manter sob o jugo humano.

Há momentos do ano (nuns anos mais do que noutros), particularmente depois de várias semanas de chuva e temporais, em que o nosso quintal parece uma pequena "selva" com folhas e frutas caídas, urtigas e outras espontâneas a cobrir os caminhos. Quando éramos mais jovens isso stressava-nos seriamente, até porque nunca faltaram, nem faltarão, olhares reprovadores a querer acusar-nos de desleixo.

Apesar disso, sempre quisemos manter o quintal repleto de árvores e plantas, o solo o mais livre possível de betão e convidar a Natureza a entrar pelos nossos portões adentro. Simplesmente porque a amamos e não a queríamos erradicar da nossa porta. Crescemos assim, um pouco como o Gérard Durrell, entre bichos-de-conta, joaninhas e corridas de caracoletas, boquiabertos a olhar as aves no céu e as borboletas. Queríamos e queremos que os nossos filhos também tenham esta oportunidade.

Com o passar dos anos e muita aprendizagem, fomos percebendo as funções importantes que o nosso pequeno quintal cumpre, mesmo (ou até principalmente) quando mais parece uma "selva". Deixámos de stressar. É tão importante assegurar alimento e abrigo para insetos, aves, pequenos mamíferos e pequenos reptéis, assegurar espaço para plantas locais espontâneas, assegurar árvores para o equilíbrio do ciclo da água, o desenvolvimento da rede micelial, etc.

Aprendemos assim a apreciar o nosso pequeno quintal ainda mais nesses períodos em que deixamos a Natureza reinar livremente. Entretanto, tornámo-nos aprendizes de Permacultura e mesmo quando jardinamos mais, preservamos sempre pelo menos uma pequena zona 5, um pequeno santuário onde não intervimos e damos carta branca à Natureza.

Nunca nos teria passado pela cabeça que um dia surgiria um movimento que viria de encontro a esta nossa filosofia e que seria acolhido internacionalmente. Mas surgiu... em resposta à assustadora degradação da biodiversidade. A ideia surgiu em 2018 e começou a dar passos consistentes em 2019. É o movimento We are the Ark (Acts of Restorative Kindness - tradução aproximada, Atos de Bondade Restauradora) que inspira a devolver à Natureza o maior espaço possível das nossas propriedades, sejam grandes ou pequenas, deixando-as transformar-se em corredores ambientais.

Abandonar os relvados, a pavimentação excessiva e permitir a renaturalização dos nossos quintais, dos nossos jardins, das nossas quintas. Reverter ou pelo menos abrandar a brutal simplificação biológica a que estamos a assistir. Mais Natureza! Mais Natureza. Porque precisamos. We are the ARK.