Laranjas caídas no chaõ sobre a Hera depois do temporal

Há certamente quem tenha queixas muito maiores dos temporais que assolaram Portugal nas últimas semanas, mas por aqui os ventos furiosos também deixaram algumas marcas pouco agradáveis. E não foi só a tranquilidade do nosso sono que sofreu.

As nossas belas laranjas que ficam tão deliciosas no final de fevereiro/início de março caíram quase todas. Uma lástima, um desperdício…

o malmequer rachado aomeio depois do temporal

O malmequer (Argyranthemum frutescens) carregadinho de botões com alguns já a abrirem, um tufo maravilhoso que prometia encher-nos os olhos nesta Primavera, rachou ao meio e tombou metade para cada lado. Apesar de tudo parece vivo e a aguentar-se, mas ficámos sem saber o que fazer-lhe ou como ajudá-lo a recuperar.

A pimenteira tombada no chão e com as raízes expostas depois do temporal

Finalmente, a nossa pior pequena tragédia. A nossa bela aroeira, (Schinus molle) tombou. Fomos nós que a plantámos (se calhar mal, porque as raízes estavam muito à superfície!) logo no primeiro ano depois de casarmos e virmos viver para aqui. Aliás, foi a primeira árvore que plantámos no nosso quintal. Uma pequeníssima e frágil pequena árvore. Vimo-la crescer junto com os nossos filhos, com os nossos pais. A sua sombra, o perfume peculiar das suas folhas, a sua presença faziam parte do quintal e do nosso quotidiano. Durante cerca de quinze anos partilhámos lado a lado a existência.

Recentemente, tínhamos ponderado a hipótese de a cortarmos para obter mais espaço soalheiro na horta e para podermos investir mais em árvores de fruto, mas não tivemos coragem. Porque sentimos que nos ia magoar demasiado. Porque sentimos que nos ia fazer falta, que era já uma parte de nós. Porque sentimos que não se pode acabar com uma árvore assim, sem mais nem menos. Porque está muito mais na nossa natureza plantar árvores do que cortar árvores. Porque vemos as árvores como seres míticos e companheiras, sobretudo eu que passei a infância a abraçá-las e a falar com elas e que tenho um imaginário povoado de seres dos bosques. Desistimos por isso da ideia.

Esta semana a Natureza decidiu por nós. A nossa bela árvore tombou. O vento venceu-a. Entra agora mais sol naquela zona e temos mais espaço para as hortícolas e para as jovens macieiras que tínhamos precisamente acabado de comprar no fim de semana anterior ao temporal. Ficámos com lenha para a lareira e ramos para trucidar e enriquecer o solo. Como concluiu Lavoisier “na Natureza nada se perde, nada se ganha: tudo se transforma.” É verdade. Mas tal como prevíramos, ficou um vazio inexplicável e um sentimento de perda. Muitos não compreenderão, mas é mesmo possível amar uma árvore e sentir a sua falta. Felizmente não a cortámos. Pelo menos assim, não temos arrependimentos.